segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Do Homem Culto

Venho falar de algo que me consome noite e dia, que me eleva, que me deixa, não superior, mas em igualdade com todos os homens: a Literatura. Venho dizer do homem culto, do homem que sente a literatura do seu cotidiano, do seu lugar.
Essa idéia só me surgiu há pouco quando olhando para minha casa e meus familiares  me deparei com uma grande verdade: os homens simples do sertão, sem educação, sem nunca terem lido um livro sequer, sem nunca terem ouvido falar em Tolstói, Dostoiévski, Hegel, Nietzsche, Benjamin, Kant, Kierkegaard, Platão, Heidegger entre outros filósofos; nunca terem lido nenhum romance de Machado de Assis, Flaubert, Stendhal, Joyce, Homero, Kafka, Guimarães Rosa ou então ainda nunca terem ouvido falar das poesias de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, entre outros, estes homens, simples, do sertão, são, sim, cultos sem precisar ter lido algo clássico.
Então o que é ser culto? O que torna um homem culto? O que é preciso para ser culto? São perguntas, aparentemente, simples e tolas, mas quando refletidas nos tira toda certeza até então, ilusoriamente, sedimentada. Comumente se diz que o homem culto é aquele que absorveu, durante uma vida, bastante conhecimento, sobretudo proveniente dos livros, homens que dedicaram tempo à leitura, aos estudos e atos de pensamento. Sabemos que a leitura é algo distante das camadas sociais menos favorecidas, que sofrem com o analfabetismo, com a ausência da cultura de leitura e nunca conheceram o mundo das letras clássicas, então como considerá-lo culto de acordo com esse saber que temos em nós de quem ou que é homem culto?
Tomo o homem culto de um belíssimo texto-palestra de Lima Barreto, O destino da literatura, texto este que nosso mulato de Todos os Santos nunca chegou apresentar. Quando neste texto, apaixonante, Lima Barreto cita o jovem filósofo Jean Marie Guyau se referindo à Arte, literatura, são essas as palavras de Guyau: "[a arte é] a expressão da vida refletida e consciente, e evoca em nós ao mesmo tempo, a consciência mais profunda da existência, os sentimentos mais elevados, os pensamentos mais sublimes. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal, não só pela sua participação nas idéias e crenças gerais, mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime".
Se a isto tomo como Arte, como literatura, posso afirmar, sem nenhum medo, que o homem que nunca leu um clássico pode sim ser um culto. Se ele, a partir do seu mundo, consegue compreender o outro, este homem chega ao universal, e só a arte, a literatura, faz isso.
Mais a frente Lima Barreto, numa reflexão das palavras de Guyau, nos fala: “Quer dizer: o homem, por intermédio da Arte, não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo, de seu nascimento, de sua pátria, de sua raça; ele vai além disso, mais longe que pode, para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo.”
Essa bela reflexão de Lima Barreto nos mostra que não é preciso ser leitor das chamadas obras universais, não é preciso ser conhecedor de todas as filosofias, dos cânones, mas é preciso ser leitor, leitor do seu tempo, lugar, origem para ir além do seu próprio lugar, e só a Arte permite isso.
Mas o que é a Arte? São os pensamentos mais sublimes, a própria existência que parte do individual para o universal, isto o homem do sertão faz todos os dias, ele anda sempre em comunhão com o pensamento sobre si, o outro e o mundo, pois ele vive na dor e a dor desperta nele o sentimento de humanidade.
Deixo aqui as lindas palavras de Jean Marie Guyau, citadas por Lima Barreto em seu texto-palestra, na certeza que com elas entenderão melhor o que digo ser um homem culto.
"Ama tudo para tudo compreender; tudo compreender para tudo perdoar."



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